Hoje, dia 18 de Novembro de 2014, é dada a conhecer ao Mundo, por intermédio deste site, a SAB – Special Aldra Beer, uma cerveja artesanal 100% pura, sem corantes nem conservantes.
Para já, apenas são apresentados três estilos (Pilsner, Belgian Ale – Dubbel e Extra Stout), mas outras irão aparecer sazonalmente.
Estas cervejas ainda não podem ser comercializadas por falta do processo de legalização, mas já foram objecto de várias degustações, de onde resultaram grandes elogios.
Em produção encontra-se nova “fornada” que promete abrilhantar alguns outros convívios de degustação.

BOAS DEGUSTAÇÕES!


O mundo das cervejas artesanais começa a borbulhar
Luís Francisco
in jornal “O Público” – 21/07/2012

O mercado português de cerveja é dominado por dois gigantes, mas não é desse negócio de milhões que se fala quando se ouvem histórias dos que, primeiro em casa, depois em pequenas fábricas, se envolvem no fabrico de cerveja artesanal. Actores incontornáveis no cenário cultural e empresarial de muitos países, as microcrevejeiras são ainda uma raridade em Portugal. Mas o sector está a mexer.

Pelos vistos, é fácil. E o investimento, pelo menos ao nível amador, é mais de tempo do que financeiro. A recompensa pode ser muito gratificante. E até pode abrir perspectivas de negócio numa altura em que a vida anda difícil para quase todos. Então como é que se explica o facto de haver tão pouca gente a fazer cerveja artesanal no nosso país? Agora que o Verão se instala em força, as grandes marcas estão a funcionar a todo o vapor, mas não é tanto para esse lado que vamos olhar. Vamos à procura das alternativas. Em alguns países e regiões da Europa, seria fácil. Em Portugal, é preciso procurar bem para encontrar os cervejeiros que produzem à escala micro.

Em volume de negócios, a Unicer (49%) e a Sociedade Central de Cervejas (48,7%) esmagam completamente a concorrência no mercado interno. Sobram apenas 2% para todos os outros operadores, um cenário que pode ser complicado para grandes empresas, mas que se torna irrelevante para os pequenos produtores, sejam eles caseiros ou de pequenas unidades industriais. Estamos a falar de universos diferentes. Toda a produção mensal da Sovina, talvez a mais divulgada das cervejas artesanais portuguesas, corresponde apenas a pouco mais de dois minutos de laboração da fábrica da Sociedade Central de Cervejas em Vialonga, que pode produzir 440 milhões de litros por ano.

Mas não é no campeonato dos números que os microprodutores querem jogar. O que todos, em uníssono, salientam é a superior qualidade de um produto que, exactamente por não ser massificado, só se pode impor pela diferença. Para melhor. “Não concorremos com as cervejas industriais”, sintetiza Arménio Martins, um dos três cervejeiros que dão corpo à Sovina, do Porto. “Isto é um nicho.” Mas com tendência para crescer: “Com mais projectos, as pessoas passarão a encontrar mais facilmente cervejas artesanais e desse contacto pode nascer uma fidelidade”.

O grande trabalho, portanto, para estes “pioneiros” é divulgar as cervejas artesanais. A Sovina nasceu em Setembro de 2011 e já garante distribuição por vários estabelecimentos, de hotéis a mercearias gourmet, passando por restaurantes e bares. “A nossa capacidade de produção não chega a 2000 litros por mês… para alargar o mercado precisamos de produzir mais”, explica Arménio Martins. É esse o projecto para 2013, com uma mudança de instalações no horizonte.
Arménio, 48 anos, designer, Pedro Sousa, 31, informático, e Alberto Abreu, 64, informático, iniciaram a sua actividade no meio há uns três anos e meio, contagiados pelo entusiasmo do último, “que já tem o bichinho há 20 ou 30 anos”. Visitaram cervejarias pela Europa, fizeram estágios, acabaram mesmo por comprar material em Lisboa e começaram a fazer experiências e a procurar receitas. Desse trabalho retiram agora dividendos: “Temos quatro cervejas permanentes, uma amber, uma helles, uma stout e uma india pale, e fazemos outras sazonais. E ainda há mais três ou quatro que eram excelentes e que queremos muito fazer”, explica Arménio Martins.

O que os homens da Sovina ainda não conseguiram foi produzir e comercializar no mesmo local, uma filosofia que está na base de outros dois projectos: a Vadia, de Ossela, Oliveira de Azeméis; e a Praxis, de Coimbra. A primeira distribui também para outros estabelecimentos, a segunda canaliza a sua produção para consumo dentro de portas. À espreita está pelo menos mais uma “concorrente”, a Cerveja Artesanal do Minho, cujos mentores, Filipe Macieira e Francisco Pereira, ambos de 27 anos e doutorandos da Universidade do Minho na área da Biotecnologia (com enfoque nas fermentações), têm feito à volta de 300 litros por mês, mas apenas para “estudos de mercado”. Estão prestes a concretizar o objectivo de passar a produzir para consumo interno numa casa, “não um bar, nem restaurante, mas um espaço de degustação”, que será, também um núcleo museológico.

“São antigas casas de moleiros, com cerca de 200 anos, onde existem infra-estruturas a funcionar pela força motriz da água e que serão utilizadas na fábrica de cerveja”, explica Filipe, convicto de que este “conceito diferenciado” vai ser um sucesso. “Não é só a cerveja. É a experiência única de um local assim, onde a cerveja é feita. E, vendendo também em barril e garrafas em superfícies comerciais, estaremos a despertar nas pessoas a vontade de visitar o local.”

Beber menos, beber melhor

É claro que a crise não passa ao lado desta gente, para mais num sector onde o mercado tem encolhido de forma dramática: o consumo médio de cerveja em Portugal desceu de 61 litros per capita em 2008 para números que deverão rondar os 50 litros este ano. Há mais de duas décadas que não se bebia tão pouca cerveja em Portugal. Os grandes actores do mercado, que exportam uma parte importante da sua produção, estão atentos. Mas os microprodutores, mais uma vez, estão num campeonato à parte.

Para Pedro Batista, 32 anos, sócio-gerente (com Márcio Ferreira, 30 anos) da cervejaria Praxis, o pior já ficou para trás. Por se tratar de uma área de negócio sem tradição em Portugal – e também devido às próprias idiossincrasias do enquadramento legal português -, a produção artesanal de cerveja é uma actividade que enfrenta um caminho legal muitas vezes tortuoso. “O empreendedorismo é muitas vezes travado pela burocracia. Há um timing de motivação de quem avança com um projecto, mas as autoridades moem a paciência de quem tenta avançar…”

A ideia de instalar uma fábrica de cerveja no meio da cidade de Coimbra esbarrou em detalhes legais. “Tínhamos de ir para um parque industrial, mas aí não teríamos clientela…”, recorda Pedro. Coimbra, que perdera a Topázio, ganhou a Praxis apenas porque o pai de Pedro Batista, também sócio da cervejeira, tinha “outros negócios que permitiram aguentar a ideia”. A ideia tem 14 anos, a produção já tem nove ou dez, mas “apenas para amigos”. A casa abriu ao público apenas “há três anos e meio”.

Pedro e Márcio partilham a formação em gestão e na área da produção de cerveja e o primeiro garante que já há “clientes fiéis” da Praxis. A produção pode atingir os 4000 litros semanais agora no Verão (no Inverno pode descer até aos 1000) e, a esta dimensão, a Praxis cervejaria “deve ser caso único no país”. Em tempos, a Lusitana produziu a sua própria cerveja, tal como a República da Cerveja ou a Day After, em Viseu, mas tudo isso é agora passado. E, se pensarmos no passado, convém lembrar que ainda hoje é visível, em Lisboa, junto à cervejaria Portugália, o espaço da antiga fábrica da Imperial, criada em 1912 – em mais de metade do país, “imperial” é denominação comum dado ao copo de cerveja à pressão. Esta infra-estrutura foi uma das englobadas na Sociedade Central de Cervejas, quando da sua criação em 1934.

Se para a generalidade dos protagonistas destes projectos, para lá do gosto pela cerveja, houve em alguma altura um contacto próximo com a realidade europeia, no caso da Vadia o argumento do filme é ligeiramente diferente. Foi a realidade europeia a vir ter com eles. Nuno Marques, 34 anos, engenheiro electrónico e professor de informática, e Victor Silva, 40 anos, director de uma empresa informática colocado em Luanda, foram “contaminados” pelo francês Nicolas Billard, 39 anos, que foi trabalhar para Vale Cambra em 1998, como director de projectos de uma multinacional de metalomecânica. Com ele, Nicolas trouxe o “bichinho da produção artesanal”: “Começámos a experimentar, passávamos as tardes de sábado a fazer cerveja”, recorda Nuno Marques.

No princípio, eram apenas “20 litros, numa panela normal de cozinha”. Depois, alimentada pelos elogios dos que provavam, a ambição foi crescendo. “Avançámos para os 100 litros, é como um vício, quanto mais fazemos mais queremos fazer”, confessa Nuno. A história iniciada em 2007 acelerou após uma festa em Vale de Cambra onde o produto esgotou e sobrou entusiasmo. “O processo de licenciamento foi iniciado em 2008 e só ficou concluído em Janeiro deste ano. Há um empréstimo para pagar e temos de produzir cerveja para o pagar…”

Tal como noutros casos paralelos, a primeira barreira a ultrapassar é burocrática. Depois vêm os hábitos de consumo e a falta de contacto dos portugueses com o mundo das cervejas artesanais. “É preciso explicar este produto às pessoas. Passe a comparação, é como um queijo fresco… não se compra para guardar por muito tempo”, lembra Nuno Marques. Mas, se o prazo de validade é menor, a qualidade pode andar muitos passos à frente da das propostas industriais.

O processo industrial procura criar a melhor cerveja possível tendo em atenção a estrutura de custos. O processo artesanal procurar criar a melhor cerveja possível. Em termos simplistas, é assim que se pode definir, à partida, a diferença entre estas duas realidades. O artesão, mesmo que se torne um comerciante, sabe que só pela diferença e pela qualidade pode conquistar algum espaço. E, afinal, “o segredo da cerveja está na simplicidade com que se faz e na qualidade das matérias-primas”, enuncia Pedro Batista, da Praxis.

Cerveja em quatro passos

Então, como se faz? Para começar, já há lojas dedicadas a esta actividade que podem aconselhar os candidatos a cervejeiros e fornecer todos os materiais e produtos necessários. Basicamente, existem quatro passos no fabrico de cerveja artesanal: a moagem dos cereais (e este pode ser anulado se comprarmos a matéria-prima já preparada), a elaboração do mosto (com água quente extraem-se os açúcares fermentáveis do malte), a sua fervura (é acrescentado o lúpulo, depois retirado, e o mosto é arrefecido) e a fermentação. Se até aqui o processo levou horas, a fermentação mede-se em semanas.

Ao contrário das suas parentes industriais, as cervejas artesanais não são filtradas (daí mostrarem-se, normalmente, mais turvas) nem pasteurizadas. A água utilizada, os cereais, eventualmente outros “condimentos” que sejam acrescentados, tudo isso mexe com o sabor final. Bem como a duração da fermentação e as condições em que decorre. Mesmo à escala industrial, cada cuba de cerveja é um produto único. Mas se os grandes produtores se preocupam em padronizar o seu produto, para os artesanais há mesmo um certo gozo em ir procurando subtis novidades.

E há até quem extraia deste rol de actividades e rotinas um sentido mais metafísico, digamos assim. Afonso Cruz, escritor (o seu último romance chama-se, apropriadamente, Jesus Cristo Bebia Cerveja), cineasta de animação, ilustrador e agricultor começou a fazer cerveja por hobby, atraído pelo que lera “num livro do século XVI em que um monge fala do fabrico da cerveja como método filosófico”. Para ele, “de facto, numa altura em que tanta gente vai perdendo a sua componente física, por causa do trabalho sedentário, a cerveja tem um método e processos que podem ser interpretados de outras maneiras”.

Afonso e o cunhado, Miguel Lima, fazem uma cerveja morena com 8,3º de álcool, a Vale da Vaca, que em breve vão começar a comercializar. Para isso, terão de aumentar a sua capacidade de produção para perto de 1000 litros por semana – e estão neste momento a “construir e criar máquinas que facilitem o trabalho”. Também eles enfrentarão um mercado pouco receptivo: “Somos um país de vinho. Ninguém entra num bar ou num restaurante e pede “um vinho”… Mas com a cerveja é o que acontece. Noutros países, quando pedimos uma cerveja, temos de dizer qual.” Ele prefere cerveja. E explica porquê: “Um mau vinho é intragável, uma má cerveja não. E a cerveja caseira é melhor do que a industrial. Só se a coisa correr muito mal é que sai pior…”

Arménio Martins não recusa uma cerveja industrial, “um bom refresco, mas que não passa daí”. “À falta de melhor, até bebo”, admite, por seu turno, Nuno Marques da Vadia. “Mas se bebermos outro tipo de cervejas, com outro cuidado, composição, é difícil beber cerveja industrial e ficar satisfeito.”

Se a ideia é procurar sabores, aromas, corpo, então a resposta está na cerveja artesanal e na imensa variedade que pode proporcionar. Aliás, só a inexistência de um sector minimamente representativo a este nível explica que tenham sido as próprias gigantes cervejeiras a lançar produtos alternativos, como a Bohemia, a Sagres Preta Chocolate, a Sagres Puro Malte, a Abadia, a Super Bock Stout, a Super Bock Classic. E por aí fora.

Mas algo está a mexer. Em tempo de crise, é difícil dizer às pessoas que terão de pagar mais, porque, naturalmente, as cervejas artesanais são mais caras. Só que o grande desafio é a novidade e são cada vez mais os sinais de que muita gente procura fugir à massificação. Para começar, nota-se um maior interesse dos candidatos a produtores, atraídos por um “mundo fascinante, como a cozinha, em que dá para fazer tudo, inventar e reinventar…”, descreve Arménio Martins. Na loja que gerem em paralelo com a Sovina, Arménio e os sócios têm notado um aumento da procura. “É como um barómetro do entusiasmo.”

E pode ser, também, uma actividade económica interessante, capaz de reavivar terras e tradições. Na pequena aldeia onde a Vadia é produzida, e onde no próximo dia 28 haverá um festival de música regada a cerveja artesanal, as pessoas viram chegar uma fábrica e uma cervejaria. “É gente já de idade, podiam ter reagido mal, mas não, acarinharam-nos sempre”, recorda Nuno Marques. “E é também para divulgar a terra que organizamos o festival”, acrescenta. Um pouco como aconteceu com Fonte d”Aldeia, Miranda do Douro, onde há pouco tempo a associação local Sartigalhos Palgrinos, que produz a Sarti, organizou o primeiro concurso ibérico de cervejas artesanais.

Serão estes sinais de que vem aí uma era diferente, uma época em que poderemos encontrar cervejas artesanais sem ter de andar a pesquisar na Internet? Quem já anda nisto mostra-se optimista. “Há uma quota de mercado a explorar. Em Espanha o fenómeno tem uns cinco anos e já há mais de 50 produtores”, diz Nuno Marques. “Acho que daqui por uns anos vai haver muitas cervejarias artesanais”, vaticina Arménio Martins.

“Tenho a certeza de que esta área vai ter um crescimento exponencial nos próximos dois anos”, analisa Filipe Macieira, da Cerveja Artesanal do Minho. “Daqui a dois/três anos, cada região do país terá a sua cerveja regional. E as pessoas terão curiosidade, vão experimentar, o que trará um conhecimento cervejeiro que actualmente só existe em relação ao vinho. E isso será óptimo.”



SAB – Special Aldra Beer
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